Rui Tenreiro é um ilustrador com origens portuguesas. Mas o seu processo de aprendizagem fê-lo fazer escala por diversas nacionalidades e culturas bem diferentes. Foi fundador da editora Soyfriends, e lançou recentemente ”the Celebration” , uma deliciosa peça de banda desenhada, com comercialização e tradução um pouco por todo o mundo.
Rui, sei que o teu precurso geográfico é diversificado, e as diferentes culturas influenciaram o teu trabalho. Onde começou esse precurso?
Maputo, Moçambique (1979) — depois de uma infância em Maputo, mudei-me para a Europa para estudar. Depois de viver em Portugal, Inglaterra, África do Sul e Noruega, mudei-me para a Suécia, onde completei agora o mestrado na universidade Konstfack em Estocolmo. O plano daqui para a frente é viver entre Estocolmo em Maputo, e aproveitar o que as duas cidades têm a oferecer.
Enquanto artista, o teu trabalho tem uma forte componente autoral, como funciona esse processo?
O meu trabalho como ilustrador divide-se em duas áreas: comercial e pessoal. Na área pessoal, há um envolvimento maior no processo de criação do mundo na qual as imagens habitam.
O meu processo de criação pessoal acontece de várias formas. Nas minhas histórias escritas, a ideia pode ser motivada por uma frase, um filme, uma canção, um livro, uma imagem, um cheiro, uma textura. Não existe uma só fórmula para escrever histórias ou ideias.
Normalmente as imagens que acumulo para referência no meu computador são pouco usadas nas minhas imagens finais. Essas imagens de referência têm mais importância numa fase inicial, em que estou a tentar perceber a atmosfera de uma história.
No princípio do processo de criação da história, há uma fase inicial em que os elementos podem não fazer sentido. Acredito que não pensamos nos elementos por acaso, mesmo que no início não o pareça. Por exemplo, se pensarmos numa história passada numa fortaleza, sabemos, no fundo, que a fortaleza é um símbolo para algo. Depois, como se estivéssemos a tentar resolver um puzzle, a história vai ganhando sentido á medida que reorganizamos a informação que temos á frente. No final, optamos por uma forma de narrar a história, uma forma nossa. Isto é uma maneira de trabalhar, ligando pontos e ideias, rascunhos, apanhando pedaços aqui e ali. O processo de criação nem sempre é algo organizado.
Como se relaciona o conteúdo e a forma, nas tuas criações?
No caso do trabalho comercial, a minha maneira de trabalhar é muito diferente. Tem mais a ver com interpretar o pedido do cliente. Tento compreender o que é desejado, e o que tenho a oferecer (ou seja, a razão pela qual fui escolhido para ilustrar certo trabalho), e usar o meu desenho para tornar esse pedido possível. Como gosto de desenhar, o trabalho é-me facilitado. Mesmo assim, sinto constantemente a necessidade de exploração além do papel, de ir além das imagens. No ano passado aventurei-me no campo da cerâmica e têxteis, e um pouco na escrita. Depois, a escrite assumiu maior importância. Se a intenção inicial do trabalho for uma só, o material escolhido para exprimir as ideias torna-se somente num meio de comunicação. O meu meio de comunicação preferido no momento são, sem dúvida, livros e histórias.
Não vejo as imagens do trabalho comercial como sendo imagens nas quais tenha de deixar uma marca pessoal. Para sonhar e exprimir ideias, tenho sempre livros e histórias. Nos trabalhos para agências de publicidade, uso somente o desenho para dar o ‘look’ a uma ideia que já existe.
Penso que é muito mais interessante imaginar e escrever o conteúdo do que fazemos, ao invés de simplesmente produzir imagens sem pensar nelas. É por isso que a parte escrita tem tido mais importância no meu trabalho nos últimos anos. Mas tudo tem o seu lugar. Mesmo a escrita precisa de uma pausa, e as imagens são sempre uma boa substituição para quando a escrita precisa de descanso.
Um muitíssimo obrigado ao Rui pela sua disponiblidade para esta entrevista, que eu devia ter postado há muito…
Marquês is an inspirational and promotional blog about Visual Arts from Portugal and worlwide, curated by Paulo lopes. Submit portfolios, events and news trought hi@marqu-es.com
Rui Tenreiro – entrevista
Rui Tenreiro é um ilustrador com origens portuguesas. Mas o seu processo de aprendizagem fê-lo fazer escala por diversas nacionalidades e culturas bem diferentes. Foi fundador da editora Soyfriends, e lançou recentemente ”the Celebration” , uma deliciosa peça de banda desenhada, com comercialização e tradução um pouco por todo o mundo.
Rui, sei que o teu precurso geográfico é diversificado, e as diferentes culturas influenciaram o teu trabalho. Onde começou esse precurso?
Maputo, Moçambique (1979) — depois de uma infância em Maputo, mudei-me para a Europa para estudar. Depois de viver em Portugal, Inglaterra, África do Sul e Noruega, mudei-me para a Suécia, onde completei agora o mestrado na universidade Konstfack em Estocolmo. O plano daqui para a frente é viver entre Estocolmo em Maputo, e aproveitar o que as duas cidades têm a oferecer.
Enquanto artista, o teu trabalho tem uma forte componente autoral, como funciona esse processo?
O meu trabalho como ilustrador divide-se em duas áreas: comercial e pessoal. Na área pessoal, há um envolvimento maior no processo de criação do mundo na qual as imagens habitam.
O meu processo de criação pessoal acontece de várias formas. Nas minhas histórias escritas, a ideia pode ser motivada por uma frase, um filme, uma canção, um livro, uma imagem, um cheiro, uma textura. Não existe uma só fórmula para escrever histórias ou ideias.
Normalmente as imagens que acumulo para referência no meu computador são pouco usadas nas minhas imagens finais. Essas imagens de referência têm mais importância numa fase inicial, em que estou a tentar perceber a atmosfera de uma história.
No princípio do processo de criação da história, há uma fase inicial em que os elementos podem não fazer sentido. Acredito que não pensamos nos elementos por acaso, mesmo que no início não o pareça. Por exemplo, se pensarmos numa história passada numa fortaleza, sabemos, no fundo, que a fortaleza é um símbolo para algo. Depois, como se estivéssemos a tentar resolver um puzzle, a história vai ganhando sentido á medida que reorganizamos a informação que temos á frente. No final, optamos por uma forma de narrar a história, uma forma nossa. Isto é uma maneira de trabalhar, ligando pontos e ideias, rascunhos, apanhando pedaços aqui e ali. O processo de criação nem sempre é algo organizado.
Como se relaciona o conteúdo e a forma, nas tuas criações?
No caso do trabalho comercial, a minha maneira de trabalhar é muito diferente. Tem mais a ver com interpretar o pedido do cliente. Tento compreender o que é desejado, e o que tenho a oferecer (ou seja, a razão pela qual fui escolhido para ilustrar certo trabalho), e usar o meu desenho para tornar esse pedido possível. Como gosto de desenhar, o trabalho é-me facilitado. Mesmo assim, sinto constantemente a necessidade de exploração além do papel, de ir além das imagens. No ano passado aventurei-me no campo da cerâmica e têxteis, e um pouco na escrita. Depois, a escrite assumiu maior importância. Se a intenção inicial do trabalho for uma só, o material escolhido para exprimir as ideias torna-se somente num meio de comunicação. O meu meio de comunicação preferido no momento são, sem dúvida, livros e histórias.
Não vejo as imagens do trabalho comercial como sendo imagens nas quais tenha de deixar uma marca pessoal. Para sonhar e exprimir ideias, tenho sempre livros e histórias. Nos trabalhos para agências de publicidade, uso somente o desenho para dar o ‘look’ a uma ideia que já existe.
Penso que é muito mais interessante imaginar e escrever o conteúdo do que fazemos, ao invés de simplesmente produzir imagens sem pensar nelas. É por isso que a parte escrita tem tido mais importância no meu trabalho nos últimos anos. Mas tudo tem o seu lugar. Mesmo a escrita precisa de uma pausa, e as imagens são sempre uma boa substituição para quando a escrita precisa de descanso.
Um muitíssimo obrigado ao Rui pela sua disponiblidade para esta entrevista, que eu devia ter postado há muito…